A Magia da Realidade

“Memórias…

…E falsas memórias podem ser deliberadamente inseridas por “terapeutas” inescrupulosos.

A síndrome da falsa memória nos ajuda a entender por que alguns dos que pensam ter sido abduzidos dizem ter uma recordação muito vivida do incidente. O que em geral ocorre é que a pessoa fica obcecada por extraterrestres de tanto ver notícias sobre outras “abduções”.

Frequentemente, como eu já disse, essas pessoas são fãs de Jornada nas estrelas ou de outras histórias de ficção científica. Em geral, os alienígenas que pensam ter visto são parecidíssimos com os retratados nos programas de televisão sobre seres extraterrestres e fazem o mesmo tipo de “experimentos” vistos na tevê.

Uma coisa que também pode ocorrer é a pessoa passar por uma aterrorizante experiência chamada paralisia do sono. Não é incomum. Talvez você mesmo já tenha sentido isso, e nesse caso espero que seja menos assustador da próxima vez que acontecer. Normalmente, quando estamos adormecidos e sonhando, nosso corpo fica paralisado. Talvez seja para impedir que os músculos funcionem de acordo com os sonhos e andemos dormindo (embora isso aconteça às vezes). Normalmente, quando acordamos e o sonho desaparece, a paralisia some e podemos mover os músculos de novo.

Às vezes, porém, o retorno da mente ao estado consciente acontece antes de os músculos voltarem à vida, e essa situação é chamada de paralisia do sono. É assustador, como você pode imaginar. A pessoa está desperta, pode ver seu quarto e tudo o que há em volta, mas não consegue se mexer. Muitas vezes essa paralisia vem acompanhada de apavorantes alucinações. A pessoa se sente cercada por um terrível perigo que não sabe definir. Às vezes chega a ver coisas que não estão presentes, como em um sonho. E, como nos sonhos, para ela tudo parece real.

Ora, se uma pessoa sofre uma alucinação enquanto está com paralisia do sono, de que tipo poderia ser? Um fã de ficção científica poderia muito bem ver homenzinhos cinzentos de olhos e cabeças grandes. Em outros séculos, antes do surgimento da ficção científica, as pessoas talvez vissem assombrações, lobisomens, vampiros ou até (se tivessem sorte) belos anjos. O importante é que as imagens vistas durante a paralisia do sono não são de coisas ali presentes, mas são conjuradas pela mente a partir de temores passados, lendas ou ficções.

Mesmo quando não ocorre alucinação, a paralisia do sono é tão assustadora que muitas das vítimas, quando finalmente acordam, acreditam que algo horrível aconteceu com elas. Se uma pessoa foi induzida a acreditar em vampiros, talvez desperte acreditando piamente que um sugador de sangue a atacou. Quem foi induzido a acreditar em abduções por extraterrestres pode acordar acreditando que foi sequestrado por alienígenas e teve memória apagada por eles.

O que costuma acontecer em seguida com as vítimas de paralisia do sono é que, mesmo se nessa ocasião não tiverem sofrido alucinações com alienígenas e experimentos medonhos, sua reconstituição do que suspeitam ter acontecido pode, influenciada pelo medo que sentiram, consolidar-se como uma falsa memória. Muitas vezes esse processo é auxiliado por amigos e parentes, que querem arrancar mais detalhes do que aconteceu e até dão a deixa com perguntas como “Havia alienígenas? De que cor eles eram? Cinza? Tinham olhos imensos como nos filmes?”. Até perguntas podem ser suficientes para implantar ou consolidar uma falsa memória. Por isso, não é de surpreender que uma pesquisa feita em 1992 tenha concluído que quase 4 milhões de americanos diziam ter sido abduzidos por extraterrestres.

A psicóloga Sue Blackmore, minha amiga, diz que a paralisia do sono também foi a mais provável causa de horrores imaginados no passado, antes que a ideia dos extraterrestres se difundisse. Na época medieval, pessoas afirmavam ter sido visitadas no meio da noite por um “incubo” (demônio masculino que aparecia para fazer sexo com uma mulher) ou um “súcubo” (demônio feminino que aparecia para fazer sexo com um homem). Um dos efeitos da paralisia do sono é que, se a vítima tentar se mover, tem a impressão de que um peso segura seu corpo na cama. Isso facilmente poderia ser interpretado pela vítima apavorada como uma agressão sexual. Uma lenda norte-americana fala de uma “velha megera” que visita as pessoas durante a noite e se senta sobre o peito delas. Na Indochina, há uma lenda sobre um fantasma cinzento que visita as pessoas à noite e as paralisa.

Portanto, temos dados para entender por que certas pessoas acreditam ter sido abduzidas por extraterrestres e podemos associar os mitos modernos sobre abduções aos mais antigos sobre íncubos e súcubos lascivos ou vampiros com longos caninos que apareciam à noite para sugar sangue. Não existe evidência confiável de que nosso planeta alguma vez tenha sido visitado por seres do espaço (nem por íncubos, súcubos e outros demônios). Mas resta a questão de se existem ou não seres vivos em outros planetas. O fato de não nos terem visitado não significa que não existam. Será que o mesmo processo de evolução, ou quem sabe um processo muito diferente, está em curso em outros planetas?

Existe realmente vida em outros planetas?

NINGUÉM SABE.

Se tivesse que dar uma opinião, eu diria que sim, deve existir vida em milhões de planetas. Mas quem se importa com uma opinião? Não existem evidências. Uma das grandes virtudes da ciência é que os cientistas sabem quando não sabem algo e admitem sua ignorância. Isso porque não saber a resposta ê um estimulante desafio para tentar descobri-la.

Um dia poderemos ter evidencias irrefutáveis de que existe vida em outros planetas, e então teremos certeza disso. Por enquanto, o melhor que um cientista pode fazer é registrar o tipo de informações que poderia reduzir a incerteza e levar da suposição á estimativa de probabilidades. E isso, em si, já ê uma tarefa interessante e bastante desafiadora.

A primeira pergunta poderia ser: quantos planetas existem? Há até bem pouco, era possível acreditar que os planetas que orbitavam nosso Sol éramos únicos, pois nem os maiores telescópios eram capazes de detectar outros. Hoje temos boas evidências de que muitas estrelas têm planetas e quase diariamente são descobertos planetas “extra-solares”, que orbitam uma estrela que não é nosso Sol (extra é a palavra latina para “na parte de fora”).

Você poderia pensar que o modo óbvio de detectar um planeta é vê-lo com um telescópio. Mas eles são opacos demais para serem vistos a grandes distâncias. Não têm brilho próprio, apenas refletem a luz de sua estrela. Por isso, não podemos vê-los diretamente. Temos de recorrer a métodos indiretos, sendo o melhor deles o espectroscópio, instrumento que vimos no capítulo 8.

Quando um corpo celeste órbita outro de tamanho aproximadamente igual, na realidade cada corpo está orbitando o outro, pois a força gravitacional que exercem é quase equivalente. Várias das estrelas brilhantes que vemos quando olhamos para o céu são, na verdade, duas estrelas, chamadas binárias, uma orbitando a outra, como as duas esferas de um haltere ligadas por uma haste invisível. Quando um corpo é muito menor que o outro, o caso de um planeta e sua estrela, o menor gira rápido em torno do maior, enquanto este faz ínfimos movimentos em resposta à atração gravitacional do corpo menor. Dizemos que a Terra órbita o Sol, mas na verdade o Sol também faz movimentos insignificantes em resposta à gravidade da Terra. E um planeta grande como Júpiter pode ter um efeito perceptível sobre a posição de sua estrela. Esses movimentos de uma estrela são pequenos demais para ser considerados um “giro” em torno do planeta, porém podem ser detectados por nossos instrumentos, ainda que não sejamos capazes de ver o planeta em si.

O modo como detectamos esses movimentos é interessante. Qualquer estrela está distante demais para que possamos vê-la em movimento, mesmo com um potente telescópio. No entanto, podemos medir a velocidade com que ela se move. Parece esquisito, mas é aí que entra o espectroscópio. Lembra o efeito Doppler que vimos no capítulo 8? Quando o movimento da estrela é um afastamento em relação â Terra, a luz dela mostrará um deslocamento para o vermelho. Quando o movimento é uma aproximação da Terra, haverá deslocamento para o azul. Assim, se uma estrela tiver um planeta em sua órbita, o espectroscópio mostrará um padrão de deslocamento vermelho-azul-vermelho-azul, pulsando ritmadamente, e o ritmo desses deslocamentos nos diz a duração do ano do planeta. É complicado quando há mais de um planeta. Mas os astrônomos são craques em matemática e sabem resolver esse problema. No momento em que escrevo (janeiro de 2011), 484 planetas, orbitando 408 estrelas, foram detectados graças a esse método. Já haverá mais quando você estiver lendo este livro.

Há outros métodos de detectar planetas. Quando um planeta passa diante de uma estrela, uma pequena parte da face dela é obscurecida ou eclipsada, como quando vemos a Lua eclipsar o Sol (só que a Lua parece muito maior porque está muito mais próxima). Quando um planeta se interpõe entre nós e sua estrela, ela brilha um pouco menos, e às vezes nossos instrumentos são sensíveis o bastante para detectar essa diminuição de luminosidade. Até agora, 110 planetas foram descobertos assim. E existem ainda outros métodos, que permitiram detectar 35 planetas. Alguns foram detectados por mais de uma dessas técnicas, e atualmente temos um total de 519 planetas detectados em órbita de estrelas, exceto o Sol, na galáxia. Descobrimos que em nossa galáxia há planetas na maioria das estrelas onde procuramos.

Assim, supondo que nossa galáxia seja típica, provavelmente a maioria das estrelas do universo tem planetas em sua órbita. O número aproximado de estrelas em nossa galáxia é 100bilhões, e o número de galáxias no universo também é aproximadamente esse. Isso significa um total de estrelas por volta de 10 mil bilhões de bilhões.

Cerca de 10% das estrelas conhecidas são designadas pelos astrônomos como “estrelas do tipo solar”. Estrelas que diferem muito do Sol, mesmo quando têm planetas, provavelmente não sustentam vida por várias razões. Por exemplo, estrelas muito maiores que o Sol tendem a não durar o suficiente antes de explodir. Mesmo se nos limitarmos aos planetas em órbita de estrelas do tipo solar, provavelmente estaremos falando de bilhões de bilhões — e essa é uma estimativa por baixo.

Mas quantos desses planetas em órbita do “tipo certo de estrela” têm probabilidade de ser adequados à vida? A maioria dos planetas extra-solares descobertos até agora são “Júpiteres”, ou seja, “gigantes gasosos”, compostos principalmente de gás sob alta pressão. Isso não surpreende, já que nossos métodos de detectar planetas em geral não são sensíveis o bastante para apontar nada menor que Júpiteres. E os gigantes gasosos não são adequados à vida como a conhecemos. É claro que isso não significa que a vida como a conhecemos seja o único tipo de vida possível. Pode ser que haja vida em Júpiter, embora eu duvide.

Desconhecemos que proporção desses bilhões de bilhões de planetas são corpos rochosos parecidos com a Terra, em vez de gigantes gasosos como Júpiter. Mas, mesmo se a proporção for muito pequena, o número absoluto ainda será alto, pois o total é imenso.

Cachinhos Dourados

A vida como a conhecemos depende da água. Repito que devemos ter cuidado ao fixar nossa atenção sobre a vida como a conhecemos, mas por enquanto os exobiólogos (cientistas que procuram vida fora da Terra) consideram a água essencial. Por isso, dedicam boa parte de seus esforços a vasculhar o céu em busca de sinais dela…”